Como ontem, passei o dia trabalhando sozinho.
Continuei organizando os procedimentos antigos.
Há alguns dias fiquei sabendo que haveria uma exumação.
Não sabia ao certo quando seria.
Pela manhã, fiquei sabendo que seria hoje às 13h30min.
Pedi para participar e auxiliar no procedimento.
Como policial, veremos todo tipo de situação, e, quanto mais
preparado para cenas fortes estivermos, melhor.
E esse certamente seria um bom choque de realidade.
O sepultamento datava de quase um ano, mas, segundo quem
entende, isso é relativo.
Durante o almoço, quase chegando na sobremesa, lembrei que o
ato logo mais não recomendava que eu comesse feito um cavalo.
Mas aí já era tarde.
Cheguei a repensar minha ida.
Chegando a hora, estava eu lá, esperando.
Fomos em três colegas buscar dois técnicos, que ajudam os
peritos.
Todas aquelas perguntas leigas inerentes ao procedimento
foram feitas.
Todas respondidas, com direito a algumas historinhas para
exemplificar.
Chegamos ao cemitério e esperamos o perito por alguns poucos
minutos.
Nada começa sem ele chegar.
Após sua chegada, os funcionários do cemitério começaram a
abrir o túmulo.
Uma expectativa pairava sobre o que eu iria ver e como iria
reagir.
Já acompanhei necropsias no DML durante a Academia, mas hoje
seria algo diferente.
Logo o caixão foi puxado para fora, intacto.
Mantive-me afastado cerca de oito metros.
Enquanto a tampa era desparafusada, o silêncio imperava.
Ouvia-se apenas o ringir do metal do parafuso contra a
madeira do caixão.
E então a tampa foi aberta.
Não senti cheiro algum.
De onde eu estava, não conseguia enxergar nada muito bem.
Decidi me aproximar.
Logo vi o corpo, quase todo decomposto.
Não exalava cheiro ruim.
Sentia-se apenas um cheiro que parecia de umidade, de mofo.
As amostras foram colhidas.
Tudo foi fotografado.
Depois de tudo, caixão fechado e colocado em seu lugar.
E aquela pobre alma pode descansar novamente.
Como podem perceber, foi tudo muito natural.
Voltei para a
Delegacia e segui trabalhando normalmente.
Confesso que a experiência no DML mexeu mais comigo.
Mostrou-me nossa insignificância e finitude.
Que não importa o que ou quem éramos, o que tínhamos, ou
qualquer outra coisa.
Tudo acaba da mesma forma.