Hoje eu vou chorar. Vou me dar o luxo de chorar.
Depois de 55 dias, eu vou poder chorar.
Vou chorar pela minha prima e pelos meus tios.
Vou chorar pelos meus alunos.
Vou chorar por todos os 241 inocentes que perderam suas vidas quando só queriam se divertir.
Vou chorar pelos familiares das vítimas, que hoje têm suas casas vazias.
Vou chorar pelas pessoas próximas, que sofreram caladas comigo por 55 dias, me apoiando até este momento.
Vou chorar pelos especialistas em segurança que nos criticaram diuturnamente.
Vou chorar pelas pessoas inescrupulosas que criaram fatos depreciativos para macular minha imagem.
Vou chorar por covardes que forjaram denúncias anônimas contra minha pessoa porque nem tiveram peito de assinar por si próprios.
Vou chorar por esses que perderam dias e dias vasculhando minha vida em busca de fatos depreciativos.
Vou chorar pelos que tentaram imputar a mim gestão política de uma investigação técnica e acompanhada publicamente.
Vou chorar por pessoas nefastas com interesses políticos que me criticaram imputando exatamente a conduta espúria que pautava o seu agir.
Vou chorar por todos que tentaram eximir-se de suas responsabilidades.
Mas vou chorar também de alegria.
Vou chorar de alegria por ter conseguido dar as respostas que de mim eram esperadas.
Vou chorar também de alegria pelos grande amigos que fiz nesses dias tristes.
Vou chorar de alegria pelo reconhecimento público do nosso esforço e dedicação.
Vou chorar de alegria porque talvez nosso trabalho previna futuras tragédias.
Vou chorar de alegria porque, a partir desse fato, as pessoas passarão a ser mais responsáveis com suas atribuições.
Por fim, vou chorar porque tive tempo hoje de lembrar que também sou humano, tenho minhas falhas e fragilidades.
Vou me dar o luxo de chorar porque hoje eu desabei.
MARCELO ARIGONY - Delegado de Polícia Regional de Santa Maria
O quotidiano de um Policial Civil novato. Relatos sobre as novas experiências como policial e as dificuldades encontradas na nova cidade.
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sábado, 23 de março de 2013
quinta-feira, 7 de março de 2013
Reconhecimento
Recebemos pelo que fazemos, mas um pouco de reconhecimento é sempre gratificante.
Uma singela homenagem aos Agentes Políciais que trabalham na investigação do incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria, mas que não aparecem na mídia.
Fonte: http://www.ugeirm.com.br/imagens/noticias_imagem/foto.primeira.jpg
Uma singela homenagem aos Agentes Políciais que trabalham na investigação do incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria, mas que não aparecem na mídia.
Fonte: http://www.ugeirm.com.br/imagens/noticias_imagem/foto.primeira.jpg
domingo, 27 de janeiro de 2013
A maior tragédia das nossas vidas
Esse fim de semana eu queria escrever sobre as mortes do meu colega de de um Policial Militar no Estado, sobre a repercussão que isso gera, sobre as opiniões de pessoas leigas no assunto.
Seria um misto de crítica e desabafo.
Eis que hoje, logo cedo, sou tomado de inopino com a notícia do terrível incidente em Santa Maria.
Não há o que falar sobre uma tragédia dessa monta.
Espero apenas a plena e profunda apuração dos fatos e responsabilização dos culpados.
Desde já, parabenizo o trabalho de todos os envolvidos no socorro e no atendimento às vítimas e seus familiares.
Fugindo um pouco do foco do Blog, gostaria de compartilhar com vocês um texto de Fabrício Carpinejar:
"A MAIOR TRAGÉDIA DE NOSSAS VIDAS
Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça.
... A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta.
Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.
A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.
As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada.
Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.
Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio.
Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.
Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.
Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.
Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.
Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo?
O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.
A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.
Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.
Mais de duzentos e cinquenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.
Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.
As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.
Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.
As palavras perderam o sentido".
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