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sábado, 23 de março de 2013

Pranto - por Marcelo Arigony

Hoje eu vou chorar. Vou me dar o luxo de chorar.

Depois de 55 dias, eu vou poder chorar.

Vou chorar pela minha prima e pelos meus tios.

Vou chorar pelos meus alunos.

Vou chorar por todos os 241 inocentes que perderam suas vidas quando só queriam se divertir.

Vou chorar pelos familiares das vítimas, que hoje têm suas casas vazias.

Vou chorar pelas pessoas próximas, que sofreram caladas comigo por 55 dias, me apoiando até este momento.

Vou chorar pelos especialistas em segurança que nos criticaram diuturnamente.

Vou chorar pelas pessoas inescrupulosas que criaram fatos depreciativos para macular minha imagem.

Vou chorar por covardes que forjaram denúncias anônimas contra minha pessoa porque nem tiveram peito de assinar por si próprios.

Vou chorar por esses que perderam dias e dias vasculhando minha vida em busca de fatos depreciativos.

Vou chorar pelos que tentaram imputar a mim gestão política de uma investigação técnica e acompanhada publicamente.

Vou chorar por pessoas nefastas com interesses políticos que me criticaram imputando exatamente a conduta espúria que pautava o seu agir.

Vou chorar por todos que tentaram eximir-se de suas responsabilidades.

Mas vou chorar também de alegria.

Vou chorar de alegria por ter conseguido dar as respostas que de mim eram esperadas.

Vou chorar também de alegria pelos grande amigos que fiz nesses dias tristes.

Vou chorar de alegria pelo reconhecimento público do nosso esforço e dedicação.

Vou chorar de alegria porque talvez nosso trabalho previna futuras tragédias.

Vou chorar de alegria porque, a partir desse fato, as pessoas passarão a ser mais responsáveis com suas atribuições.

Por fim, vou chorar porque tive tempo hoje de lembrar que também sou humano, tenho minhas falhas e fragilidades.

Vou me dar o luxo de chorar porque hoje eu desabei.

MARCELO ARIGONY - Delegado de Polícia Regional de Santa Maria

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O choro durante o depoimento


Logo cedo fomos para o interior, cumprir um mandado de busca e apreensão.
Fomos em quatro policiais, mas todos na mesma viatura.

O dia anterior foi chuvoso, deixando muito barro nas estradas do interior.
Pra piorar, muitas porteiras para abrir durante o percurso.

Na ida, não abri nenhuma. Na volta, todas.
Mas foi por vontade própria.

A hierarquia ou a antiguidade não foram utilizadas.
Revistamos a casa, os colegas olharam no meio do mato, mas não encontramos o que buscávamos.

Quando voltamos para a Delegacia uma oitiva esperava para ser feita.
Um menor foi apreendido com uma considerável quantidade de drogas na madrugada.

Ele aguardava com a mãe.
A indignação dela só não era maior que a minha, de ver um guri tão novo andando sozinho de noite e envolvendo-se com o tráfico.

Aconselhei, tentei abrir-lhe os olhos, embora saiba que isso é indiferente para alguns.
Disse com seriedade e calma o que achei que precisava ser dito.

Não fui estúpido, não fui mal educado, não dei lição de moral.
Apenas relatei o que o espera se não resolver sair logo desse mundo.

Vi sinceridade nas lágrimas dele.
Se ele vai seguir os conselhos ou não, é outra história.

Durante a tarde, realizamos algumas diligências na rua.
Uma delas foi o levantamento de um local de crime onde havia ocorrido um duplo homicídio tentado no carnaval.

Procuramos sinais e resquícios dos projéteis por todos os lados.
Imaginava ser mais fácil.

Mesmo com a notícia de muitos disparos realizados, fui muito difícil encontrar evidências.
No meio da tarde, o setor de pagamento, de Porto Alegre, me telefonou.

Segundo eles, havia problemas para pagar minha ajuda de custo.
A ajuda de custo é devida quando o servidor é transferido contra a sua vontade, desde que essa remoção não seja em função de alguma falta.

Quando a remoção é a pedido, não é devida a ajuda de custo.
Teoricamente, ela serve para que o servidor público instale-se na nova cidade e arque com as despesas oriundas da remoção.

Na prática, ela vem muito depois da transferência.
Tanto é que estou trabalhando há cinco meses e ainda não recebi.

Por algum motivo, meus documentos para cadastro no sistema FPE não deram certo.
Esse sistema serve para o recebimento de diárias, também, por exemplo.

Acho que amanhã resolvo tudo isso, encaminhando por e-mail todos os documentos.