Agora entendo quando diziam que ser policial é muito mais do
que uma profissão, é um estilo de vida.
Agora entendo muita coisa que antes eu criticava e que agora
me envergonho por isso.
Ser policial é muito mais do que tirar um expediente de oito
horas diárias, quarenta semanais, ou um plantão de doze ou vinte e quatro
horas.
Ser Policial é estar sempre a disposição.
Eu disse SEMPRE.
Se quiser entrar para a Polícia, acostume-se com isso.
Caso aconteça alguma coisa em seu horário de folga, você não
poderá invocá-la para abster-se de agir.
Não importa se é um fim de semana, um horário de almoço, o
aniversário do filho, ou a ida para casa depois de um exaustivo plantão de
vinte e quatro horas com flagrantes e ocorrências invadindo a noite.
Você estará cansado. Exausto na verdade.
Uma noite em claro termina com qualquer um.
Ou o seu filho pequeno não te deixou dormir bem a noite.
Está pensando com como pagar todas as contas com o salário que recebe.
Seus problemas particulares e profissionais separados ou
combinados, lhe perturbam a mente.
Pense em uma situação com todos esses fatores combinados ou
até mesmo isoladamente.
Uma situação se apresenta de inopino e você é chamado a
intervir.
É chamado a intervir diretamente, por instinto, por
indignação, por obrigação ou outros tantos fatores que podem ocorrer numa hora
dessas.
Nenhum dos fatores que lhe perturbavam lhe servirá de álibi.
Além da obrigação de agir, temos a obrigação de acertar.
SEMPRE!
Não nos é permitido errar.
Aí, à situação apresentada não irá importar se você estava
fora de forma, se estava desarmado, se estava cansado, se estava atento, se a
ameaça era maior ou mais preparada que vocês.
Acredite, nada disso vai justificar uma decisão errada.
Decisão que deverá ser tomada em milésimos de segundo.
E mesmo que você não faça nada, que decida não intervir,
ainda assim você será cobrado, você fará parte da cena, e poderá ser
prejudicado, ferido ou morto.
Agir ou não agir em uma situação dessas, é uma decisão que
caberá estritamente a você e a mais ninguém.
Mas saiba, que mesmo assim, você receberá críticas.
Leigos completos no assunto se sentirão no direito de dizer
o que deveria ter sido feito ou não.
Dirão que você poderia ter feito de outra forma, que poderia
ter sido mais rápido, que poderia ter se preparado mais.
Você será criticado quando acertar, quando errar, e quando
se abstiver de fazer algo.
Quando estamos em desvantagem e acertamos, foi sorte.
Quando erramos, fomos precipitados, mal preparados, não
usamos as técnicas, etc.
É como se não fôssemos humanos.
Os casos recentes exemplificam bem isso.
O Brigadiano que baleou um indivíduo dentro do Trensurb em
Porto Alegre recebeu críticas por atirar em um local com grande concentração de
pessoas.
O Policial Civil Michel Vieira, meu colega de Acadepol, foi
criticado por reagir ao assalto que sofria.
O outro Brigadiano que foi baleado com a própria arma
recebeu críticas pelo acontecido.
Depois do ocorrido, do conforto de suas poltronas, na frente
da TV, todos sabem exatamente o que poderia ser feito.
Pessoas que não precisam nem conhecer as técnicas policiais
ou o dia a dia policial pra dizer qual era a decisão correta.
E mesmo quando tudo der certo, virão outras pessoas dizer
que poderia ter sido diferente.
Ainda tenho paciência pra explicar para as pessoas próximas
que nem tudo é tão simples quanto parece, mas mesmo entre eles, percebo resistência
em entender.
Quando vejo críticas de pessoas que não conheço, fico em um
misto de indignação e revolta.
O texto do Humberto Trezzi, em minha humilde opinião, foi
rebatido a altura pelo comandante do POE da Brigada Militar.
Mas nem sempre temos ferramentas suficientes para nos
defendermos, ou alguém acha que a Zero Hora dará direito de resposta para tudo
o que foi escrito?
E assim, essa é a verdade que fica.
E mesmo assim, nossa indignação não pode refletir no
trabalho.
Temos de levantar a cabeça e continuar realizando tudo da
melhor maneira possível.
Afinal, isso é ser POLÍCIA!