Não contei ontem, nem poderia, mas sabia que hoje pela manhã
participaria da minha primeira operação.
Fui avisado no início da tarde de ontem.
Passaram apenas o horário e a cidade, nada mais.
Ao chegar em casa, separei minha roupa preta, passei e
deixei pronta para o outro dia.
Acabei indo dormir tarde, já passava de meia noite, mesmo
sabendo que acordaria muito cedo.
Levantei as 04h20min.
Antes das 05h os colegas já me esperavam na frente do lugar
onde estou.
Encontramos outros colegas no trevo e saímos em direção a
Itaqui.
No caminho, passamos por várias viaturas da Polícia Civil,
todas rumando para o mesmo lugar.
Nos reunimos em uma propriedade no interior, mas próxima a
cidade.
Lá, fomos divididos em grupos e cada grupo recebeu um
envelope.
No envelope, a missão, contendo a foto do indivíduo que
deveríamos cumprir mandado de prisão, foto da casa, e, em anexo, os mandados de
prisão e de busca e apreensão, documentos em branco para preencher com a
comunicação de prisão a alguém da família e bens apreendidos.
De início fiquei meio inseguro em ficar em um grupo em que
não conhecia ninguém.
O mais velho do grupo me perguntou se era a minha primeira
operação e eu disse que sim. Ele apenas ficou em silêncio.
Nos deslocamos em comboio.
Até a ordem de cada viatura fora planejada, de modo que o
carro que ia na frente apenas indicava onde os de trás deveriam parar.
Como eram duas casas no pátio, uma colega e eu entraríamos
na da frente e os outros dois colegas na casa dos fundos.
Ao localizar a casa, descemos rápido, arma em punho, sangue
nos olhos.
Batemos na porta da casa informando que era a Polícia, mas
não houve resposta.
Forçamos a porta, que estava enroscada apenas com um arame e
calçada por uma pedra, e ela abriu.
Logo apareceram os moradores da casa e mandamos que ficassem
todos na mesma peça.
Como da outra vez, eu fiquei de olho neles enquanto os
colegas faziam as buscas pela casa.
Eram oito pessoas, metade crianças.
A mais velha deveria ter não mais que 6 anos.
Nesse momento, enquanto eu empunhava a arma em posição sul (apontando
para baixo), com a expressão mais fria que pude, fiquei pensando na vida
daquelas crianças.
Ficou claro que nossa entrada ali não era um fato novo.
Eles já conheciam os procedimentos e estavam, até certo
ponto, calmos.
Elas vivem o ambiente criminoso, acostumam-se com nossas entradas
enquanto dormem e talvez apenas lhe desagrade o fato de as acordarmos mais cedo
do que estão acostumadas.
Imagino que, ao viverem o crime e se acostumarem com isso,
inevitavelmente nos vêem como pessoas más, que entram sem pedir e tiram as
pessoas que elas amam, independente de quem são.
Sinceramente, sou do tipo que me importo e até sofro um
pouco com esse tipo de situação.
Claro que isso não me impede de realizar um bom trabalho,
mas faz com que trate aquelas pessoas com, pelo menos, dignidade e educação.
Em meio a esse monte de pensamentos, um gato preto cruzou o
ambiente, enquanto o indivíduo preso pedia para ir ao banheiro.
Não sou do tipo que tem muitas superstições, mas um gato
preto é sempre um gato preto.
Fui autorizado a desalgemar o indivíduo e conduzi-lo ao
banheiro.
Porta entreaberta e atenção total!
Mas ele não tentou nada.
Troquei com o colega mais velho e fui ajudar nas buscas,
enquanto ele cuidava do pessoal.
Olhei minuciosamente cada parte que me cabia.
Os potes que tinham conteúdo foram mexidos com uma colher,
afinal, não se sabe o que se pode encontrar.
Cada buraco na parede, cada bolso de calça pra lavar foi
verificado.
Aqui, apenas omito a informação quanto às apreensões. Não há
necessidade.
Terminada a busca, fui incumbido de preencher os papéis
necessários.
Feito isso, conduzimos o preso até a viatura e fomos ao
encontro dos outros colegas.
Seguimos para a Delegacia em comboio, sirene ligada, missão
cumprida.
Até aqui é tudo “romântico” para quem gosta de histórias
policiais.
O trabalho de verdade começa ao chegar na Delegacia e dar
início aos registros de ocorrência informando as pessoas presas, objetos
apreendidos, confeccionar os flagrantes, enfim, a parte chata da história.
Depois disso, um café bem montado nos esperava.
Terminamos tudo pela manhã e já retornamos para São Borja
para continuar o expediente.
O resto do dia não é digno de nota, a ponto de concorrer com
o que descrevi acima.
O gato preto?
Bom, o gato preto mostrou que era um dia de azar... para o
dono!
(Link da notícia: http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2012/10/policia-prende-12-pessoas-em-acao-contra-o-trafico-em-itaqui-rs.html)