Muita chuva na cidade.
A noite foi preenchida com muita chuva e muito vento.
Contrariando todas as possibilidades da Lei de Murphy, na
hora de sair para o trabalho, ela cessou.
Logo depois da chegada, fomos conduzir um preso em flagrante
até o presídio.
Enquanto o preso colocava os cadarços e a cinta, dei de mão
no meu par de algemas.
Ainda não havia usado as algemas, nem sabia se era boa ou
não.
A chave, por enquanto, carrego na carteira, dentro do lugar
das moedas.
Está sempre comigo e não corro tanto risco de perder.
Após o preso ter juntado todos os seus pertences, pedi que
ele virasse de costas.
Algemação sempre para trás, isso foi muito frisado na
Academia.
Eu estava sozinho, mas não houve problemas.
Conduzi o preso até a porta, enquanto meu colega manobrava a
viatura.
Aproveitei para puxar assunto.
Perguntei nome, que horas tinha
sido “a bronca”.
Não há motivos para animosidades.
Certamente iremos prender as mesmas pessoas mais de uma vez.
Uma relação de, pelo menos, respeito, pode ser a diferença
entre, futuramente, fazer força ou não.
Como da última vez, sentei atrás, do lado do indivíduo.
Conduzimos o preso até o presídio.
Pegamos o recebido no ofício de encaminhamento e voltamos
para a Delegacia.
De chegada, fiz minha solicitação para ausentar-me da cidade
no feriado de sexta-feira e no fim de semana.
Nem todos os Delegados exigem isso, mas é costume por aqui,
mesmo em dias de folga.
Podemos ser acionados a qualquer momento, por um motivo ou
outro.
Então, pelo menos deixamos avisado onde estamos e como podemos
ser contatados.
Depois, preenchi uma tabela com as horas extras do mês para
mandar para a Regional.
Realizei 17 horas extras.
Durante a tarde, fomos entre quatro colegas cumprir um
mandado de prisão.
Fomos alertados de que o indivíduo possuía uma arma de fogo.
Chegamos na casa, cercamos e batemos na porta.
Um senhor nos avisou que o rapaz já havia sido preso.
Ligamos para o presídio e confirmamos a informação.
Voltamos pra Delegacia.
Meu colega e eu começamos a organizar os procedimentos que
estavam sobre a mesa.
Alguns dias fora desorganizam tudo.
Mais procedimentos chegam e misturam-se àqueles que já
estavam mais ou menos encaminhados por ali.
Nossa tarefa foi interrompida por uma pessoa que queria dar
algumas informações.
Logo no início da conversa percebi que minha presença estava
causando certo receio à pessoa e me retirei da sala.
Informantes criam afinidades com alguns policiais e, muitas
vezes, não se abrem com outros colegas.
A conversa durou bastante tempo e eu fiquei meio perdido por
ali, entre uma sala e outra.
Depois de tudo isso, fomos avisados sobre o cumprimento de
dois mandados.
Se cumpríssemos logo, poderíamos encontrar alguma coisa, já
que raramente cumprimos mandados no período da tarde.
Fomos entre quatro colegas em um endereço, enquanto outros
três colegas foram em outro.
Estacionamos na contramão e eu fui um dos primeiros a
descer.
Quando vi, estava entrando no pátio da residência na frente
dos colegas.
Não foi combinado, mas foi o que a situação apresentou.
Dei uma segurada, para que os colegas se aproximassem, e
passei a determinar, para as pessoas que iam aparecendo, que levantassem as
mãos.
O lugar era muito pobre.
Aparentemente, coletam lixo, materiais recicláveis e todo
tipo de bugiganga que encontram.
Havia muito lixo espalhado por todos os lugares.
Bicicletas desmontadas, geladeiras velhas, potes, latinhas,
garrafas, telhas, entre outras tantas coisas.
Outro colega revistou um rapaz que apareceu dos fundos e
tirou uma faca que ele trazia na cintura.
Quando tiramos as pessoas da casa, uma pancada de chuva
começou.
Casa pequena, com os moradores, mais nós, Policiais, não era
uma boa idéia.
Pedi que se aproximassem da casa, para escaparem da chuva.
Alguns entraram, outros ficaram lá fora, mas tudo tranqüilo.
A casa era de madeira e chão batido.
Uma cozinha, com um fogão a lenha sem cano, esfumaçava o
ambiente.
Dei uma vasculhada na sala.
Muitos papelotes de alumínio espalhados pelo chão. Todos vazios.
Logo, dois cachimbos feitos de cano de PVC apareceram.
Mas nada de drogas.
A chuva havia cessado.
Saí da casa e comecei a procurar no meio do lixo que estava do
lado de fora.
Vasculhando cada objeto que pudesse esconder alguma coisa.
Acabei encontrando uns documentos de um veículo dentro da
caixinha de luz.
O motivo de estar ali eu não sei.
Após muitos procurar, voltei para dentro da casa e comecei a
ajudar na busca dentro do quarto.
A quantidade de coisas no pequeno espaço dificultava
bastante.
Um quarto sem janelas, aliado à fumaça, e o próprio cheiro
do lugar, tornava um desafio estar ali por muito tempo.
Abri a geladeira, que ficava no mesmo cômodo, e o cheiro colocou
meu estômago à prova.
Enquanto estávamos, uma colega e eu, no quarto, realizando
as buscas, quem aparece?
Quem?
O gato preto!
Não o mesmo daquele dia, claro, mas outro gato preto.
Não contive o riso na hora ao lembrar do outro post sobre o
gato preto.
Feita a busca na casa, saí para o pátio.
Um colega cuidava dos moradores, enquanto os outros olhavam
no meio do entulho.
Terminamos as buscas sem encontrar drogas, apenas indícios
de consumo no local.
Acabamos chegando na Delegacia depois das 18h.
Hoje, o gato preto não deu sorte nem azar pra ninguém.