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sábado, 16 de fevereiro de 2013

O desabafo do policial baleado



Passados 45 dias de uma das maiores ações criminosas da história do Estado, em que três assaltantes foram mortos e nenhum refém restou ferido após a explosão de uma fábrica de jóias, o único policial militar baleado com gravidade na madrugada de 30 de dezembro, em Cotiporã, vive momentos de angústia. 

O servidor público que protegeu uma família de agricultores e tirou de circulação bandidos que usavam explosivos para roubar bancos, pedágios e empresas vê golpeado, pela primeira vez em 15 anos, o orgulho de vestir a farda da Brigada Militar. Entre os mortos, estava o então foragido número 1 do RS, Elizandro Rodrigo Falcão, 31 anos. 

Além do movimento em uma das mãos, o PM de 41 anos, casado e pai de um menino de seis anos, perdeu o vale-alimentação, as horas extras e a gratificação salarial que dobravam seu salário. Além disso, admite que a curto prazo não receberá a promoção anunciada pelo governador Tarso Genro.

A promoção, que tramita na Subcomissão de Avaliação e Mérito de Praças da BM, só ocorrerá quando o soldado for considerado inocente no inquérito aberto pela BM para verificar se os policiais não se excederam no confronto com os assaltantes. O PM também precisará ser inocentado na ação civil pública que tramita na Justiça comum. A seguir, entrevista concedida por ele ao jornal Pioneiro.

Entrevista: Policial baleado

"Eu poderia nem estar mais aqui"

Pioneiro — Como vocês estavam armados? E os bandidos?
Policial — Eles estavam com fuzil, pistola e quatro ou cinco armas curtas. Nós tínhamos três fuzis.

Pioneiro — Em que momento o senhor foi baleado?
Policial — Quando eu me protegi atrás da viatura para recarregar a pistola. Levei dois tiros na perna e o meu colega levou estilhaços na canela. Quando sobrou só um bandido (o criminoso achado no mato uma semana depois), ele fez um cordão de reféns para evitar que a gente atirasse nele. Quando eu mandei os reféns se abaixarem, ele atirou no meu braço. Eu tentava negociar a saída dele ou a nossa. No começo, ele queria que nós pegássemos a viatura e fôssemos embora. Depois, tentou negociar para que ele fosse embora. Quando os colegas falaram que não tinha chance, ele fugiu para o mato.

Pioneiro — Você foi logo atendido?
Policial — Não, demorou. Eu estava perdendo sangue, com o braço quebrado.

Pioneiro — Você sofreu algum impacto emocional?
Policial — Todos que estavam envolvidos têm experiência. Não teve nenhum tipo de sequela psicológica.

Pioneiro — O que mudou na sua vida profissional?
Policial — A Brigada está me dando a assistência que preciso. Passei por duas cirurgias, fiquei 17 dias no hospital sem qualquer custo. Mas agora estou afastado, a princípio por seis meses, para recuperação dos movimentos da mão.

Pioneiro — Qual era seu salário antes e quanto recebe agora?
Policial — Nós perdemos parte do sálario quando somos afastados. Perdi a gratificação que ganhava como sargento (embora seja soldado). É complicado perder parte do salário. Quando mais você precisa, o salário é retirado. Mas faz parte do regulamento. Tenho 15 anos na BM, e sempre foi assim.

Pioneiro — Qual sua renda?
Policial — Eu estava recebendo em média R$ 3 mil. Agora recebo em torno de R$ 1,7 mil. O problema é que as contas não param. Só com aluguel nós gastamos R$ 500. Por enquanto, estamos conseguindo encaixar dentro da renda. Não está faltando nada.

Pioneiro — O governador Tarso Genro anunciou, quando visitou Cotiporã, que pediria a promoção dos policiais que atuaram no confronto. Se promovido, o senhor passará de soldado para...
Policial — Nós arriscamos a nossa vida, eu poderia nem estar mais aqui, então seria uma valorização ao policial militar. Eu passaria para segundo-sargento.

Pioneiro — Quando o senhor volta ao serviço?
Policial — A minha expectativa era que fosse o mais rápido possível, mas vai demorar um pouco, pois é preciso que o inquérito aberto para ver se agimos corretamente seja arquivado. Essa demora, financeiramente, acabará me prejudicando.

Pioneiro — E o futuro?
Policial — O meu objetivo é recuperar o movimento da mão. Minha mãe pede que eu saia da Brigada e consiga outro emprego. Mas, depois de passar 15 anos na Brigada, é complicado abandonar tudo.

PM tem perdas salariais

Mesmo que as reduções na folha de pagamento de um policial militar ferido constem no estatuto, a Associação dos Cabos e Soldados da Brigada Militar as considera arbitrárias.

Além de perder horas extras e bonificações, o soldado ferido também fica sem direito ao vale-alimentação durante o período de afastamento. Outra luta da entidade é pela garantia de apoio psicológico, não oferecido aos servidores:

— O regulamento é ultrapassado. Temos muitos soldados dispensados por não terem condições de atuar nas ruas, mas que poderiam desempenhar atividades administrativas. Neste caso, o soldado é mutilado psicologicamente porque, para a Brigada, se tu não podes atuar fora, é um inútil — diz o presidente da associação, Leonel Lucas.

Na primeira quinzena de janeiro, o governador Tarso Genro solicitou que fosse aberto processo de promoção dos quatro brigadianos que confrontaram em Cotiporã.

— Após a tramitação do processo criminal que corre na Justiça comum, ele seguirá para deliberação de um colegiado formado por oficiais da BM. Mas, caso haja alguma denúncia por parte do Ministério Público ou de outra parte do processo, ele poderá se arrastar por mais tempo — reconhece o comandante da Subcomissão de Avaliação e Mérito de Praças, capitão Márcio Soares Lopes.
Caso seja considerado inválido para o trabalho, o soldado de Cotiporã receberá um seguro de R$ 25 mil. No restante do país, a média é de R$ 150 mil.


Texto extraído do Jornal Zero Hora:
 http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/policia/noticia/2013/02/o-desabafo-do-policial-baleado-4046622.html

13 comentários:

  1. Impressionante a falta de apoio aos policiais que arriscam a própria vida para salvar os demais. Considero um abuso o polícia ter protegido os reféns e ter executado assaltantes que poderiam matar todos, e depois ficar sem gratificações e ficar respondendo a processo por ter tirado vagabundos do mundo. Um outro absurdo é o salário, como pode ter um salário desses para por a vida em risco dessa forma. Isso precisa mudar urgente e pra ontem. Fico indignado com essas coisas. Falta de respeito é pouco. União é necessário pra tentar mudar alguma coisa. Abraços e parabéns pelas excelentes postagens.

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  2. Lendo isso, acabei sem querer fazendo um paralelo com a iniciativa privada: Um empregado que sofre acidente de trabalho tem total proteção da empresa, continua tendo direito ao vale alimentação e plano de saude e o beneficio que recebe (auxilio doença do INSS) tem por base o valor dos ultimos rendimentos).

    Agora pergunto: Pq a mão que bate de um lado afaga do outro? O funcionário público presta um serviço à população, deveria ser o primeiro a ser valorizado!

    O Legislativo criou há cerca de 60 anos as regras de proteção ao empregado (CLT), mas o funcionário público é submetido à esse tipo de situação quando mais precisa. Imagino o quanto isso seja desestimulante, pq voce protege pessoas, patrimonios e o que ganha em troca?? Diminuição dos seus rendimentos! Você vê sua família afundar em dívidas, seu padrão de vida (que nem é alto!)cai, e você fica nessa situação simplesmente por cumprir seu papel. Fico pensando se o pobre do policial se arrepende de não ter se omitido, porque quem passa por privações agora é ele, além de responder à um Inquérito pra saber se não se excedeu!!!!! Não estou dizendo que ele deveria ter se omitido, estou dizendo que somos seres humanos e que se isso passar pela cabeça dele -ainda que por um momento - eu vou compreender!

    Lamentável tudo isso! Desejo melhoras ao Mike, que tudo retorne ao seu lugar o mais rápido possível.

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  3. Luiz, aproveitando o ensejo, te importas de fazer um relato sobre a etapa de exames médicos do teu concurso??

    A da PCERJ se inicia na quarta-feira, data em que eu - por ter o nome com a letra A :) - entregarei os meus. Tive algumas alterações no exame de sangue, e segundo o clínico nada de anormal, mas isso tem me preocupado muito.

    Já perdi as contas de quantas pessoas me disseram que isso é bobeira, que se o médico falou então tá tudo ok, mas é um concurso, e eles tem que eliminar alguém, certo??

    Enfim, to tão preocupada que tá até dificil dormir direito! rs

    Abs

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    1. Aline, também vou entregar os exames médicos pra PCERJ!! Eu fiquei mais tranquilo pq disseram que nos ultimos concursos da PCERJ ngm ficou reprovado!! Só os faltosos!! Sem contar que eles pediram pra que entregassemos um atestado médico dizendo que estamos aptos a exercer as funçoes né?! To ansioso tbm, mas espero que dê tudo certo!! E seria uma boa o Luiz e também o Papa Charlie, se puderem, é claro, falarem um pouco sobre essa etapa que tem nos assombrado tanto...
      Grande abraço

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    2. Oi Marcus, legal encontrar mais um candidato da PCERJ aqui! Então, eu espero que seja só paranoia de candidato (mulher é paranoica de natureza, o que também influencia! rs), e o médico me deu o atestado sem nenhum problema, espero que os medicos tenham a mesma tranquilidade.

      Ansiedade toma conta do meu ser, porque tudo que quero nesse momento é iniciar logo o CFP!

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    3. Oi Aline, também estou aprovado na pcerj e aguardando meu dia para entrega. O que deu de alterado no seu exame? Abraços.

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    4. Outro ponto Aline é que na minha opinião não vai reprovar ninguém, exclusivamente por conta desse atestado.

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    5. Deu um problema na creatinina (menor que o valor mínimo de referencia) e monócitos um pouco acima do valor maximo de referencia. Como eu tinha tomado 2 vacinas na mesma semana do exame, o medico acredita que tenha sido em decorrencia delas.

      Espero mesmo que o atestado supra qualquer problema, nao posso ser desclassificada de jeito nenhum :(

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    6. Marcos, faz muito tempo que entrei. Só me lembro que demoraram quase quatro longos anos para eu tomar posse (concursos da PCERJ têm esse histórico, infelizmente). Entendo sua ansiedade, mas fica tranquilo. Vai dar tudo certo!
      Abraço!

      Papa Charlie

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  4. Amigos, por mais que nós amemos a polícia, não podemos esquecer que infelizmente somos funcionários públicos e estamos sujeitos a todas as sacanagens possíveis e até mesmo inimagináveis. Se você não está disposto a correr esses dois riscos (ser baleado durante o serviço e ser mal tratado, e se ferrar no trabalho porque algum político quis, ser lotado longe de casa, em uma DP pior), peça demissão. Agora vou falar a realidade dos meus colegas aqui, só dois se ferraram duplamente após serem baleados (policiais novos), porque os que estão há mais tempo, têm dois, três empregos e se tiver algum problema de saúde tem a disposição um hospital privado e uma boa quantia no banco que não os deixa passar necessidade. Eu quando me aposentar além da aposentadoria de funcionário público, terei minha previdência privada que pago todo mês além de imóveis e comércio. E tenho outros vários amigos que são empresários super bem sucedidos da área de segurança e investigação privadas, eles só trabalham na Polícia pelo relacionamento. Aqui na minha DP mesmo se vocês olharem a garagem tem carros que custam mais de 300 mil reais e posso afimar que não tem nenhum bandido e o meu carro é melhor que o do próprio Doutor. Podemos ser ótimos policiais, mas não podemos ser otários, oportunidades lícitas não nos faltam...

    Aline, ainda há tempo de desistir.... ha ha ha

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    1. Não sou o Sr. 06, não vou pedir pra sair! hahhahaha


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  5. Essa reportagem só corrobora o que eu sempre digo e até já comentei nesse blog. Não é possível ter apenas o salário da Polícia para viver, infelizmente. Senão, a gente só sobreviveria. Esquecendo um pouco a questão de diminuição da remuneração quando se fica afastado do serviço (o que provavelmente acontece em todas as Polícias e é muito ruim, deveriam acabar com isso), a remuneração total é de dar desânimo. Mesmo que não se more em um lugar muito caro, a vida será bastante modesta com uma renda de 3 mil reais, falada na matéria. E esse PM da reportagem ganha isso porque tem muitos anos de Polícia. Um soldado aqui no Rio ganha menos de um mil reais. Sinceramente, se eu tivesse de viver apenas com o salário do governo, mesmo gostando muito da profissão, pediria demissão.

    Eu entendo que muita gente diz que Policial não deve ter dois empregos, que deve trabalhar exclusivamente na Polícia porque o trabalho é diferente de todos, é estressante. Mas se formos analisar a vida profissional de outras pessoas, veremos que não é exclusivadade dos Policiais a necessidade de ter outras ocupações. Atualmente não conheço ninguém que tenha apenas um emprego. Entre parentes, amigos e vizinhos. Todos se esforçam muito para ter uma renda cada vez maior e manter um bom padrão de vida de classe média alta em uma das cidades mais caras do mundo - Rio de Janeiro. Todos têm no mínimo dois empregos, alguns chegam a ter quatro. Exceto os empresários, mas mesmo esses tentam diversificar os negócios em vez de ter apenas uma empresa. Até mesmo um amigo militar de carreira que na teoria não pode ter outro trabalho, tem outras atividades remuneradas porque o salário é baixo. Alguns amigos executivos também são professores universitários, cobram por palestras, prestam assessoria. Minha esposa, por exemplo, é funcionária pública federal, consultora empresarial, leciona em duas faculdades e está abrindo uma franquia. E eu tenho outro emprego, na área de Gestão de Riscos Corporativos e ganho muito bem, porque sou bacharel em administração e cursei um MBA em SP.

    Até mesmo os Policiais Federais, que todo mundo diz que ganham super bem, reclamam do salário. Porque o salário deles é de nível médio, eles almejam ganhar o mesmo que os Peritos Criminais. Pelo que sei, os Agentes ganham 7 mil e os Peritos 13 mil reais.

    Aline, seja muito bem-vinda à PCERJ!

    Papa Charlie

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  6. Papa concordo com absolutamente tudo que você falou. Uma amiga que é ISAP vem aproveitando a formação em direito e prestando consultoria nos dias de folga.


    Muito obrigada, de coração!!!1

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